Campeão Brasileiro de kart emprestado

Foi em 2009 que eu criei este blog, o Por Fora dos Boxes, para escrever um pouco sobre corridas quando não tinha o que fazer no vasto tempo livre dos tempos de escola. De lá para cá, foram várias pausas, mudanças de layout, de estilo, de ocupações, novos afazeres que tornaram a constância o ponto fraco deste espaço. Mas é bem comum dar vontade de voltar a postar por aqui, por isso resolvi, mais uma vez, reativá-lo.

Não esperem muita coisa, nem em termos de qualidade, nem em termos de quantidade. Vez ou outra eu deixo um registro por aqui, e posto no twitter. A propósito, sigam-me no Twitter, o @renandocouto, só clicar ali na barra lateral. E enquanto eu não faço nada novo para colocar aqui, resgato uma entrevista que fiz com Roberto Pupo Moreno para o Allkart.net, publicada no começo deste ano. Se você não leu, é uma história legal, eu garanto. Se você leu, dá uma moral aí, vai.

Aqui, a publicação original. Abaixo, o texto da entrevista.

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“Eu trabalhava em uma oficina mecânica chamada Camber, que era do Alex Dias Ribeiro e onde o Nelson Piquet trabalhava como mecânico de motocicletas”. Vinda de qualquer pessoa que fosse, essa frase, iniciando uma conversa, indicaria que a história que seria contada a seguir mereceria uma atenção especial. Acontece que essas palavras não foram ditas por qualquer um. Foi assim que, encostado no muro dos boxes do Autódromo de Interlagos, Roberto Pupo Moreno começou a contar sua história ao Allkart.net.

Seu nome é famoso no automobilismo. Passou pela Fórmula 1 e pela extinta Champ Car, e viveu momentos emocionantes em ambas. Ficou marcado na memória dos entusiastas de automobilismo, o seu choro no Grande Prêmio do Japão de 1990, quando subiu ao pódio pela única vez em sua passagem pela F-1, em uma dobradinha brasileira, com Nelson Piquet em primeiro lugar. Uma história de amizade que começara duas décadas antes, em Brasília (DF).

Roberto Pupo Moreno (esq.) e Nelson Piquet (dir., de bigode), em Brasília, nos anos 70 (Foto: Museu do Kart)

“Meu pai mudou para Brasília junto com o Banco Central (ele era funcionário) e eu disse que, já que ele estava me tirando da praia, no Rio de Janeiro, queria que ele me desse uma moto. Eu tinha 12 anos, mas, na época, era seguro. Brasília não tinha trânsito, não tinha sinal, não tinha cruzamento. E eu o convenci a me dar uma motocicleta chamada Yamaha Mini Enduro, comprada nessa oficina, a Camber”.

Quem conhece a história de Moreno sabe que ele sempre nutriu uma paixão muito grande pelas motos. O que poucos sabem é que foi a partir dela que começou a sua relação com o kartismo: “O Nelson Piquet era o único mecânico de Brasília que havia feito um curso na Yamaha em São Paulo. Como a oficina era perto de casa, eu ia muito lá, e acabei conhecendo o Nelson, que, em 74, comprou, junto de um amigo jornalista, dois karts, dois Max Mini. A intenção dele era treinar até o começar o campeonato de Super V”. Surgiu, assim, a oportunidade de Roberto entrar em contato com o kart. O amigo jornalista de Nelson, cujo nome Roberto não se lembra, mas que tinha o apelido de “Bola Murcha”, nunca foi nem ver o kart. “Então era eu que ia andar com o Nelson. Eu que amaciava, brincava, e pedi ao meu pai que comprasse um kart para mim”. Só que era caro, “muito mais do que eu podia pagar”. A resposta foi: “eu não tenho condições de sustentar um kart, mas eu posso comprar, desde que você consiga trabalhar para arcar com os custos”.

“Como eu era curioso por motos”, continuou Roberto, “comecei a trabalhar junto com o Nelson na Camber. Chegou um ponto que ele começou a passar serviços para mim, eu comecei a ganhar um dinheiro e fazer corridas. Fiz duas junto com o Nelson, e ganhei a primeira delas. Depois disso, ele foi seguir carreira e eu continuei correndo”. A diferença entre os dois é de sete anos. Mais tarde, quando chegou a hora de Moreno dar um passo adiante e seguir para o automobilismo, foi Piquet quem o ajudou. “Muita gente pensa que nós somos grandes amigos. Na verdade, ele era como se fosse um irmão mais velho para mim”. Quando a Camber fechou, pouco depois, Roberto passou a trabalhar na preparação de motores para manter-se correndo. “Trabalhava durante a semana e, no sábado, quando eu entregava os motores, tinha dinheiro para comprar as peças do meu kart”.

Nessa época, Brasília estava voltando a ter competições de kart. As corridas aconteciam no estacionamento do Centro de Abastecimento de Brasília (CENABRA, hoje, CEASA), e no estacionamento do estádio Mané Garrincha. Logo de cara, Roberto foi bicampeão brasiliense, em 1974 (categoria Novatos) e 1975 (categoria PC – Piloto de Competição). Em 1975, ele fizera um “upgrade” e comprara o novo modelo da Kart Mini, o Mini SS, com a ajuda de Waltinho Ferrari, dono de uma oficina mecânica chamada Ideal, em Brasília, e de outros patrocinadores, como a Pneulândia.

O momento mais emocionante da carreira de Roberto foi ao lado de Piquet: a dobradinha no GP do Japão de 1990, em Suzuka (Foto: WRI)

Em 1976, veio o título brasileiro, conquistado de forma suada, e bastante inusitada fora das pistas. O palco foi o Kartódromo do Maqui-Mundi, no Rio de Janeiro. A conquista pode ser dividida em três fases. A primeira delas foi conseguir os equipamentos e um modo de viajar até a cidade maravilhosa.

“Eu tinha um motor, um chassi e um jogo de pneus. Como que eu ia correr? Os pilotos de São Paulo tinham três chassis, seis motores… Juntei amigos que não iam andar, peguei motor emprestado de um, motor emprestado de outro, chassi emprestado de um, chassi emprestado de outro… Pedi uma Kombi emprestada para o pai de três garotos que eu preparava o motor, e ele impôs uma única condição: o motorista dele, o Gurgel, ia dirigindo. A minha equipe era eu e o Gurgel”. Nesse Brasileiro, Chico Serra foi campeão na categoria POC (Piloto Oficial de Competição). Roberto competiu na PC 125.

Deste modo, Moreno chegou ao Maqui-Mundi, mas estava andando em “quinto, sexto lugar”, segundo ele mesmo. E aí a segunda missão foi apresentada: os pneus. “Eu competia com pneus Excelsior. Coincidência ou não, todos que estavam a minha frente usavam pneus chamados Pneubrás. Perguntei para o Fernando Dias Ribeiro, que estava em primeiro, e ele disse que tudo era a mesma coisa. Mas eu andava, andava, andava e não saia do sexto lugar”.

Roberto foi, então, conversar com o Chicão, da Pneubrás:

“Chicão, esses pneus são bons?”, perguntou Roberto.

“Muito bons, muito melhores que o seu Excelsior”, respondeu Chicão.

“Pô, Chicão, me vende um jogo”, pediu.

“Não tenho, o que eu tenho é só para a gente, os jogos vieram contados”, negou.

Desapontado e consciente de que precisaria destes pneus para melhorar seu desempenho, Roberto procurou por todo o kartódromo alguém que tivesse um jogo de pneus sobrando. Sem sucesso. À noite, ele voltou a conversar com o Chicão:

“Chicão, eu vou embora”.

“Mas por que, Baixo?”

“Se eu correr contra vocês, vou ficar só assistindo”, lamentou Roberto.

Chicão, então, pensou e encontrou uma solução: “Eu tenho oito jogos de pneus parados na Varig, em Brasília, mas precisa pagar para tirar. Se você pagar, eles são seus, e você faz o que quiser. Se você vender com lucro, metade do lucro é meu”.

Era a hora de encontrar o telefone e ligar para Brasília “Liguei para o meu pai na quinta-feira. Contei a história toda e ele disse que não tinha dinheiro. Então eu mandei ele passar um cheque ‘borrachudo’ que, com os pneus chegando no Rio, eu vendia, afinal, tinha mais gente querendo, e eu pagava tudo”. No outro dia, os pneus chegaram. E, como diz o ditado, um campeão também precisa contar com a sorte: “Tinham três tipos de pneus, e eu não sabia qual era o mais mole. Fiz ‘unidunitê, salamê, minguê’ e acabei escolhendo o mais mole. Sem querer”.

Havia um porém: antigamente, os pneus precisavam ser amaciados por um tempo (20, 30 minutos) antes de ficarem perfeitos para a aderência. “Ou seja, cheguei para a classificação com os pneus novos e um motor antigo. O freio mecânico do meu kart era uma coisa ultrapassada e o sistema de direção era de dois anos atrás. O Alex, que era o entendido de kart no Rio de Janeiro, me disse: ‘Roberto, vai embora que com esse kart aqui você não vai fazer nada’”. Era a terceira fase daquele campeonato particular que Roberto disputava.

Na classificação, Moreno cravou o quarto lugar. No Warm Up, já era o mais rápido de todos. Na primeira bateria, ele pulou para segundo e ficou atrás do pole, Fernando Dias Ribeiro, executando a ultrapassagem no meio da corrida. “Na segunda bateria, a mesma coisa, e fomos campeões brasileiros de kart com equipamentos emprestados”.

Roberto Moreno com o carro com o qual disputou sua única corrida de Fórmula Vê, em 1987, em Brasília; no muro dos boxes estão vários troféus, provavelmente de conquistas no kart (Foto: Blog do Pandini)

Pouco depois do título nacional, a carreira de Roberto Pupo Moreno passou por um hiato. Um acidente de moto, sofrido durante um racha entre amigos no Autódromo de Brasília, no dia 28 de março de 1976, o afastou das pistas por um ano. “Isso fez com que eu parasse de andar de moto e me dedicasse só ao kart. Passei um ano indo ao hospital todos os dias para consertar meu pé”. O retorno às pistas aconteceu no Brasileiro de Kart do ano seguinte, que aconteceu no novo Kartódromo do Guará, em Brasília – cuja inauguração, meses antes, ele perdera. O Brasileiro de 77 é outro em que a luta de Roberto para disputar foi quase épica.

“Eu ainda estava com uma ferida no pé. Eu não preparava mais motores, então mandei o meu para o Tchê, que era o melhor da época. Quando fui fazer a minha inscrição, o Dr. Carpinelli” (Rubens Carpinelli, hoje presidente da FASP, e que presidia, à época, a Comissão Nacional de Kart) “disse que eu não ia correr com o pé enfaixado. Meu pé estava bom. Tinha um buraquinho ali, mas não era nada que me impedia de correr. Então ele mandou eu conseguir um médico que me autorizasse a correr”.

“Achei o pai do Fernando e do Alex Dias Ribeiro, e ele me deu autorização para correr. Voltei para a pista e me toquei de que tinha esquecido de buscar o motor na Varig. Quando cheguei lá, já tinha fechado, e a lacração seria naquele dia”. Roberto começou a rir ao se lembrar do que fez para contornar o problema: “Lacrei um motor velho que eu tinha em casa, que não tinha nem ignição eletrônica, tinha ignição antiga. No dia seguinte eu teria que lacrar o motor que eu fui buscar na Varig com o mesmo número. Arranjei a mesma tinta de lacração, o que foi difícil, e comprei aquele negócio que se usa para pintar a numeração dos motores. Eu mesmo lacrei o meu motor”.

Como a classificação fora feita com um motor ruim, “que não andava”, Roberto largou do último lugar no grid. Na primeira bateria, com o motor que fora preparado pelo Tchê, escalou o pelotão até chegar ao quinto lugar. Para conseguir esta última ultrapassagem, ele passou literalmente por cima do rival: “O quinto deu uma amarrada muito grande, eu toquei na roda dele e voei e passei por cima dele”. Algumas voltas depois, uma peça se soltou dentro do carburador e acabou com as chances de vitória.

O primeiro teste de Roberto Moreno na F1, em um carro da Lotus; ele usou o macacão de Nigel Mansell e o capacete de Nelson Piquet (Foto: F1 Nostalgia)

A passagem de Roberto Pupo Moreno pelo kartismo se encerrou em 1978, quando, ajudado por Nelson Piquet, ele se tornou o primeiro brasileiro a ir do kart direto para o automobilismo europeu, sem andar em categorias brasileiras. Ou melhor: pelo kartismo profissional, pois, como o próprio relata, “mesmo depois que eu parei, eu sempre brinquei de kart”. Ao dizer isto, Roberto levantou a camisa e exibiu os calombos que estavam em suas costas: um dia antes da entrevista, ele disputara uma bateria de kart indoor, em Interlagos, junto de alguns amigos.

Quando eu morei em Mônaco, corri três ou quatro vezes naquele GP de kart que acontece todo ano, e ganhei todas”, lembrou. Hoje, Moreno mora nos Estados Unidos, e não está envolvido com nenhum projeto relacionado ao kartismo. “Eu só gostaria de correr o SKUSA SuperNationals, em Las Vegas”, riu.

Durante a entrevista, diversos nomes famosos no kartismo e no automobilismo foram citados. Alex e Fernando Dias Ribeiro, Nelson Piquet, Chico Serra, Lúcio Pascual (Tchê), e outro nome de peso surgiu. Teve uma história que Roberto contou sabendo que impressionaria:

“Eu saía de Brasília de ônibus para comprar peças em São Paulo. Era tão mais barato que eu pagava a viagem, levava peças mais modernas e ainda conhecia as novidades daqui. Em uma dessas viagens, eu passei na Araçá, aqui na frente do Kartódromo de Interlagos, e tinha um piloto andando. De curiosidade, fomos lá para ver. O garoto ia para a pista com o motorista. Saia do box na contramão, começava a acelerar até a metade da reta e voltava para abrir a volta. O motorista tirava o tempo, ele dava uma única volta e parava para trocar o carburador, sair e fazer a mesma coisa. Era o Ayrton Senna”.

Na lista de adversários, foram lembrados ainda José Alexandre, Cláudio Duarte (irmão de Regina Duarte, atriz) e Wagner Rossi, que chegou a competir de Fórmula Ford na Europa. “Brasília sempre teve grandes pilotos que não conseguiram sair de lá. Era um ninho de pilotos muito bons. O Nelson foi o primeiro a sair de lá”. Como referência, Moreno colocou Maurício Sala.“Ele era um grande ídolo. Era o cara que eu olhava e falava ‘quero andar que nem ele’. Eu admirava muito o pessoal do kart, como ele, o Chico Serra, gente que eu nunca pude competir contra, pois eles estavam sempre uma categoria acima”.

A fase final da carreira de Roberto Moreno se deu nos Estados Unidos, na extinta Champ Car (Foto: F1 Fanatic)

Seus circuitos favoritos foram mesmo os de Brasília. “Gostava muito de andar, tanto nas pistas de rua do CENABRA e do Mané Garrincha quanto no Guará. Eram curvas de 90º, onde dava para passar muita gente, mas também era fácil de errar”. Pistas com essas características ele voltou a encontrar nos Estados Unidos, quando competiu na Champ Car. “Ajudou muito a andar lá, é o aprendizado do kart”.

Falando em aprendizado do kart, para Roberto, este foi fundamental. Dentre outras coisas, a história aqui contada, relatando sua passagem pelo kartismo, “contribuiu para tudo o que eu sei no automobilismo. 90% de tudo o que eu usei, eu trouxe do kart. E tudo o que eu desenvolvi no kart eu pude usar no automobilismo”.

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Um comentário em “Campeão Brasileiro de kart emprestado

  1. Oi, conheci o Pupo lá em Brasília na época do ginásio, estudamos no mesmo ginásio, gostaria de saber se alguém poderia me dar o e-mail dele é que tenho um filho que foi vice-campeão baiano de kart com apenas treze anos correndo de V4 já que aqui na Bahia não tinha categoria pra ele, ele era o piloto mais jovem da categoria e a maioria dos seus concorrentes era maior de idade,e mesmo ele tendo estreado uma corrida depois do campeonato começado e correndo com o Kart mais velho(na verdade uma montagem de carros) ele ganhou praticamente todas as corridas em que a montagem não quebrou! Ainda por cima foi o único da categoria a vencer totalmente uma corrida, mais rápido nos treinos, mais rápido na corrida e vencendo as duas baterias mesmo tendo que largar em último na segunda bateria!O problema é que eu sou pobre,sou professor, e por isso não pudemos dar continuidade, tentamos patrocínio afinal ele tinha bons resultados em pista, mas aqui na Bahia foi impossível, se já é difícil ae pelas bandas do RJ e SP imagina por aqui na Bahia em 2004! Infelizmente meu filho continua apaixonado por carros e como o Pupo naquela época era um cara muito legal e simples e até por que eu sei que ele também teve que lutar muito para ter a carreira que teve, gostaria que me enviassem se possível o e-mail dele , é a útima tentativa desesperada de um pai!

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