Hoje, sim, 10 anos

No dia 12 de maio de 2002, domingo de dia das mães, em que a Dona Ideli não havia viajado para a corrida, Rubens Barrichello abria caminho para Michael Schumacher a poucos metros da linha de chegada no GP da Áustria. O momento foi narrado de maneira épica por Cleber Machado (Galvão já devia estar concentrado na Copa do Mundo da Coreia e do Japão), uma das frases mais lembradas da história das transmissões de automobilismo no Brasil.

Aquela talvez tenha sido uma das melhores corridas da carreira de Barrichello na F1. Pole-position, ele liderava desde a largada a sexta etapa do Campeonato Mundial. Schumacher era líder disparado da tabela de classificação, enquanto o segundo piloto da Ferrari vinha de problemas nas primeiras provas no ano. Aquela corrida seria um marco para uma mudança no rumo da temporada de Barrichello – poderia ele emplacar uma sequência de vitórias para se firmar na briga pelo vice-campeonato?

No entanto, aquela corrida se tornou o ponto mais negativo da carreira do brasileiro, Em seu terceiro ano de Ferrari, ele colocava sobre si a responsabilidade de dar vitórias ao Brasil, de conquistar títulos. Vencera, até então, uma vez, em Hockenheim, no ano de 2000. Sem nenhuma vitória nos 17 GPs da temporada de 2001, ele encerraria um hiato de um ano e meio em Zeltweg.

O modo como tudo foi feito foi tão gritante que revoltou o meio da F1. A Ferrari recebeu duras críticas não só no Brasil – o que pouco importaria – mas em todo o mundo. A FIA instituiu uma regra que proibiu as equipes de efetuarem o “jogo de equipe” – regra esdrúxula, diga-se, que já deixou de existir, depois de uma nova inversão de posições efetuada pela Ferrari, no GP da Alemanha de 2010.

A cerimônia de pódio foi realizada sob um mar de vaias dos fãs presentes no A1 Ring. Schumacher passou Barrichello, venceu a corrida e levou os pontos. Depois, deixou o companheiro subir ao degrau mais alto do pódio, lhe deu o troféu e o dinheiro da premiação. O hino que tocou, no entanto, foi o alemão. Os pilotos foram cumprimentar Barrichello, em solidariedade ao que acabara de acontecer.

O ano de 2002 seguiu, com o segundo piloto da Ferrari vencendo quatro corridas – todas elas dobradinhas. Nürburgring, Hungaroring, Monza e Indianápolis. Nas três primeiras, ficou evidente que a cúpula da equipe italiana preferiu evitar controvérsias e disse a Michael Schumacher para não tentar a ultrapassagem. No GP da Europa, ele ainda não era campeão. No GP da Hungria, já. No fim do ano, a “gentileza” de Rubens foi “retribuída” nos Estados Unidos.

Em uma temporada tão dominante da Scuderia, que tinha um dos melhores carros de todos os tempos, a F2002, era desnecessário ordenar a inversão de posições no GP da Áustria da forma com que tudo foi feito. Schumacher seria campeão e empataria Fangio, todos sabiam.

Quando Barrichello teve de abrir caminho para o alemão, ficou evidente que, dentro da Ferrari, ele era apenas um funcionário. Muito bom e corporativo, diga-se. A partir daí, começou a eterna luta do piloto para mostrar a todos que ele era injustiçado, que aquilo estava errado, que ele não era obrigado a fazê-lo. “Sou apenas um brasileirinho”. Faltou dizer, no entanto, o porquê de aceitar passar pela situação.

Demitido ao término da temporada, ele certamente teria lugar em outra equipe de ponta da época. McLaren ou Williams, afinal, os italianos contrariam um dos pilotos destas equipes: David Coulthard ou Kimi Räikkönen sairiam de Woking, ou Juan Pablo Montoya ou Ralf Schumacher, de Grove. É suposição da minha parte, claro, mas é a lógica. E estas equipes veriam, em Rubens, um piloto de primeira linha, vice-campeão do mundo e vencedor de quatro provas. “Um dia vou escrever um livro”.

Nesta semana, em entrevista publicada pela Revista Playboy, uma nova versão. Ameaçado por algo que lhe fez repensar a vida. Tá. O que foi tão grave assim? Afinal, nada mudou. Ele continuou na mesma equipe, com as mesmas pessoas, e, principalmente, contra o mesmo companheiro de equipe. Continuou amigo. Só depois de um tempo que ele começou a dizer coisas do tipo: “Schumacher nunca foi meu amigo”. Ficou bêbado e gritou “Schumacher, viado”.

Condeno a atitude da Ferrari. Não se tira uma vitória de um piloto. Valendo a segunda, terceira, quarta, oitava posição, tudo bem. Não a vitória. Cada vez mais eu penso que a melhor coisa que sobrou de toda essa história de 2002 é a narração de Cleber Machado.

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