O regulamento técnico da F1 não pode ser feito pelas equipes

Durante o GP da Inglaterra, Bernie Ecclestone declarou, em entrevista ao ‘Daily Mail’, ser a favor de que as equipes assumam a responsabilidade pelo regulamento técnico da F1. Mas não todas, só as equipes grandes: Ferrari, McLaren, Red Bull, Mercedes e Williams.

“As regras devem ser feitas pelas equipes, mas não todas as equipes”, defendeu o britânico. “São as equipes que entram com o dinheiro, e não a FIA. As regras deveriam ser feitas pelas equipes mais estabelecidas, que estão aqui para ficar: Ferrari, McLaren, Red Bull Mercedes e talvez a Williams, pelos velhos tempos”, disse o vendedor de carros que se tornou um dos homens mais ricos do Reino Unido.

Ecclestone não é, nem nunca foi, bobo. Seus movimentos são sempre calculados, e sempre envolvem algum interesse implícito. O que estaria por trás desta declaração? O novo Pacto de Concórdia da F1.

Nos últimos anos, as equipes têm demonstrado insatisfação com algumas das regras implantadas pela FIA, os sucessivos banimentos de novidades criadas pelos times e a introdução de novas e caras tecnologias, na contramão da política de redução de gastos que vem sendo adotadas – um exemplo disto são os motores que serão usados a partir de 2014, V6 turbo de 1.6 L, que devem custar quase o dobro dos valores atuais.

Aí chega 2012, ano de se renovar o Pacto de Concórdia da F1 e as negociações emperram, demoram, não saem. A Mercedes diz que não concorda, demora para ceder. O prazo é prorrogado. Ecclestone garantiu que agora o processo está na “típica coisa de advogado”, que é a análise dos contratos e de cada termo utilizado.

O que parece é que as equipes desejam ter um regulamento menos restritivo e maior autonomia sobre os rumos técnicos da F1. Neste ponto, as reclamações com relação a FIA estão corretas. Pediram isso à Ecclestone, e o dirigente vai intermediar o desejo dos times junto à entidade máxima do automobilismo.

O gozado é que essa mesma moeda de troca já foi usada, só que no sentido contrário, nos anos 1980. Em meio àquela interminável guerra entre as equipes e Jean-Marie Balestre, então presidente da FIA, pelo controle da F1 – Bernie era o líder da FOCA e dono da Brabham – Ecclestone ofereceu à FIA o poder de decisão com relação às regras, e o lado comercial ficaria com as equipes. O francês ainda pediu para que o acordo entre as equipes e a FIA fosse batizado de Pacto de Concórdia, para agradar seu ego e dar uma imponência maior para o contrato.

Hoje, o que acontece é o caminho inverso. Financeiramente, as equipes estão bem. Até querem ter uma fatia maior do bolo, reconhecendo que Ecclestone embolsa muito dinheiro, mas parecem estar mais insatisfeitas é mesmo com as decisões recentes da FIA, desde os tempos de Max Mosley, e continuando agora com Jean Todt. A diferença é que Mosley fazia tudo de modo ditatorial.

Não creio que todo o regulamento técnico passe a ser concebido pelas equipes. Seria um golpe muito duro para a FIA, ficaria a péssima impressão de que a entidade é desnecessária. A Nascar não responde à FIA. Está pouco se lixando, para falar a verdade. As federações estão cheias de engravatados que muitas vezes nunca fizeram nada demais para o esporte, é verdade, mas não dá para dizer que a FIA é desnecessária para a F1. O próprio Mosley, por exemplo, nunca foi engenheiro, piloto, mecânico ou coisa do tipo. Ele era um advogado que aspirava à política e, entusiasta do automobilismo, envolveu-se com o projeto da March nos anos de 1970. Sem conseguir entrar na política inglesa, optou pela política do esporte. Fez um bom trabalho. Na sua mão, a FIA deixou de ser a piada folclórica que era com Balestre, adquiriu maior respeito, mas o dirigente também nutriu inimizades nos 16 anos em que esteve no poder.

Também não é bom que a FIA perca poder e deixe de fazer o regulamento. É preciso existir um órgão regulador, mais distante, para tomar certas decisões, incluindo esta. Pode haver um diálogo maior, um processo diferente, mas não dá para excluir a entidade.

Antes que alguém diga que a FIA é parcial, por mais distante eu não quis dizer que a FIA é imparcial. Também não quero dizer que ela puxa a sardinha para a Ferrari ou para outra equipe em detrimento das demais. Mesmo que exista uma relação mais próxima dela com alguém, ela está mais distante. Quer alguém mais próximo e tentando defender mais seus interesses do que as próprias equipes?

O discurso pode ser bonito de que elas vão fazer o melhor para o esporte, porém, assim que uma medida boa para o esporte afetar seu bolso, a equipe será pronta e existirá um racha. Como rachou a FOTA, a atual associação dos construtores, com as saídas de Ferrari, Red Bull e Toro Rosso. A anarquia, a solidariedade e a colaboração entre as equipes de F1 existe até a página 2. A FIA é o governo, imprescindível.

O regulamento técnico da F1 não será feito exclusivamente pelas equipes. Se o for, será um tiro no pé da F1. E o que Ecclestone fez? Apenas levantou a bola para a discussão. Levou a conversa para um extremo, para que, no fim, um meio-termo seja alcançado.

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