A pressão em busca de um novo Sebastian Vettel

Em seu blog no site da Red Bull, Jean-Éric Vergne escreveu um texto bastante interessante comentando a pressão que existe dentro do programa de jovens talentos da empresa. O mais interessante é o fato de o francês reconhecer que os resultados não foram os melhores e de ter a coragem de culpar o carro por isso.

Está certo. O carro é ruim, e não é pelo fato de ambos os pilotos da Toro Rosso serem novatos que os resultados não são bons. Daniel Ricciardo foi o nono colocado no GP da Austrália. Na Malásia, Vergne terminou em oitavo, e foi só.

O melhor resultado de Vergne em 2012 foi o oitavo lugar no GP da Malásia (Foto: Red Bull/Getty Images)

A diferença da Toro Rosso para as demais é gritante. A Force India, que está a frente do time italiano, tem 44 pontos. São 38 a mais. E a Toro Rosso supera apenas as três nanicas, e está mais próxima da Caterham do que do pelotão intermediário. As aparições nos pontos vieram nas provas atípicas que abriram a temporada.

Voltando ao texto de Vergne, o francês não detonou o carro, não fez críticas à equipe. Apenas disse que o bólido não está do jeito que todos gostariam que estivesse, apesar de todo o trabalho duro. Mas vale analisar o que o piloto analisou quanto à pressão. Os resultados não vieram até aqui, e é isso que vai começar a ameaçar o futuro de ambos na F1.

Vergne disse que a pressão é “completamente normal”, afinal, “muito dinheiro é investido”. Disse também que a pressão vem de todos os lados. “Red Bull, Dr. Marko, Giorgio Ascanelli, Franz Tost”.

Dr. Marko. Este é o nome. Helmut Marko é o responsável pelo programa de jovens pilotos, e nem sempre ajuda os garotos. Ele quer resultados. Emplacou, de primeira, Sebastian Vettel. Apoiando o alemão desde o começo, conseguiu levá-lo ao bicampeonato da F1. Acabou, assim, a cobrança sobre ele por resultados. O problema é que Marko acha que todos tem que virar novos Vétteis. É isso que ele está procurando, e, se os resultados não vêm, ele vira Pedro Bial e os elimina.

Os chefões, Christian Horner, Franz Tost e Helmut Marko (Foto: Red Bull/Getty Images)

Dia desses, o Felipe Giacomelli comparou o passado recente do programa de jovens pilotos da Red Bull ao São Paulo Futebol Clube. Contrata-se gente que não é tão boa e, depois de um tempo, a ficha cai. O piloto fica queimado, como aconteceu com Lewis Williamson, e quem chega se vê ainda mais pressionado, sabendo que qualquer resultado adverso será um problema. Eu ainda compararia a outro time paulista, o Santos.

Em 2002, com os “Meninos da Vila”, conquistaram o Brasileirão. Depois, chegaram à final da Libertadores e voltaram em 2004 para vencer novamente o nacional. Era o time de Paulo Almeida, Alex, Diego e Robinho. Este foi o grande nome daquele time, o que se destacou. Saiu direto para o Real Madrid, fez até greve para agilizar sua negociação. Mas foi o ídolo da torcida na década de 2000. E, durante todo esse tempo, todos ficaram esperando por um novo Robinho, que surgiu, oito anos depois: Neymar.

Substituto de Williamson, o português Antonio Félix da Costa venceu a prova de Silverstone da GP3, e falou exatamente nisso depois da corrida. “Se você está aqui, tem que apresentar resultados”.

Será Antônio Félix da Costa capaz de se tornar o novo Vettel? (Foto: Red Bull/Getty Images)

Esse discurso é o mesmo do de Pedro Bianchini. O brasileiro, que entrevistei para a edição 26 da Warm Up, chegou a assinar um contrato nos mesmos moldes do contrato de Vettel com a empresa das bebidas energéticas, em 2007. Dez anos de duração. Contudo, um acidente durante a pré-temporada o impediu de completar os treinos e o afastou das duas primeiras etapas do campeonato da F-BMW Alemã. Quando retornou, com essa defasagem em relação aos concorrentes, tinha dificuldades em acompanhar o ritmo dos demais, e as pressões de Marko começaram. “Não sei qual era a intenção dele, mas me atrapalhou”, disse Bianchini, que deixou o programa da Red Bull da Europa no fim daquele ano. Seguiu com o apoio da marca em 2008, mas da filial brasileira. Quer, agora, depois de alguns anos parado, nos quais fez faculdade e reorganizou sua vida no Brasil, voltar ao automobilismo.

Em 2009, a Red Bull promoveu a estreia de Sébastien Buemi na Toro Rosso. No meio daquele ano, Sébastien Bourdais foi demitido e deu lugar a Jaime Alguersuari. Até o fim de 2011, os dois formaram a dupla do time, porém, com a renovação de Mark Webber com a RBR – o que, por si só, já revelou uma desconfiança com relação aos primeiros da fila – e a iminente promoção de Ricciardo para a Toro Rosso, havia a expectativa pela continuidade de um dos dois. A incógnita era com relação a qual dos dois havia agradado mais até então. E, surpreendentemente, ambos foram dispensados. Alguersuari recebeu o convite para continuar e ser reserva da equipe principal, e recusou, passando o bastão para Buemi.

Entre 2009 e 2011, Buemi e Alguersuari não conseguiram convencer (Foto: Red Bull/Getty Images)

Ricciardo e Vergne chegaram sabendo que a exigência seria alta. E ainda não fizeram nada impressionante. O que precisam, e sabem disso, é bater um ao outro.

No desempenho em classificações, o australiano é muito superior. Vence por 8 a 1, e conseguiu avançar ao Q3 duas vezes, largou em sexto no Bahrein, e nunca ficou para trás no Q1. Vergne, provavelmente com problemas para se adaptar aos pneus da Pirelli, assim como tantos outros pilotos, é quem mais vezes ficou pelo caminho ainda no Q1, sem contar as nanicas, claro.

Nas corridas, a coisa muda de figura. Além de ter mais pontos – mesmo que seja uma quantidade insignificante – Vergne terminou cinco das nove provas a frente de Ricciardo.

Marko celebra com Vettel a vitória no GP da Itália de 2008, já sob os olhares de Christian Horner (Foto: Red Bull/Getty Images)

A graduação no programa de jovens talentos da Red Bull não vai acontecer neste ano. Webber renovou seu contrato para 2013. Ricciardo e Vergne precisam é demonstrar que tem potencial, precisam de grandes atuações, para mostrar que, quando Webber, enfim, sair no fim do ano que vem, conseguirem subir para a Red Bull. A impressão que fica é que Webber está lá apenas esquentando o banco para o novo Vettel. O problema é que Marko ainda não conseguiu emplacar esse novo Vettel. Está se pressionando para isso, e descontando a pressão nos garotos. Como se desconta nos técnicos no futebol.

Na Alemanha, a metade da temporada será alcançada. Restarão 10 provas para o fim do ano, mais tempo para que Ricciardo e Vergne mostrem serviço, para que provem que o dinheiro neles investido foi bem aplicado.

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