Obrigado, Zanardi

Lembro-me bem de assistir às 500 Milhas da Alemanha de 2001, no Eurospeedway, em Lausitz. Meu pai e eu colocamos na Record, que transmitia a “Fórmula Mundial”, aquele nome fajuto dado à CART. Aquela semana havia sido tensa. Quatro dias antes, os ataques de 11 de setembro chocavam o mundo.

E outra tragédia aconteceu ali, ao vivo. Alessandro Zanardi perdeu o controle de seu carro na saída dos boxes, já no fim da corrida, rodou e ficou atravessado na pista. Patrick Carpentier evitou um acidente, mas Alex Tagliani não conseguiu desviar. Uma imagem forte para qualquer um, até mesmo para um garoto como eu. O cockpit rachado, dividido em dois, o drama, os destroços. Tudo ao vivo, de novo.

Depois ficamos sabendo que Zanardi perdera as duas pernas. “Correr em oval é muito perigoso”, dizia meu pai. Nem me lembro quem ganhou aquela corrida, nada mais importava. Só depois de um tempo descobri que o Kenny Brack ficou com a vitória, que deveria ser do Zanardi, líder antes de realizar seu pit-stop.

Não tem como esquecer daquilo. A primeira grande tragédia de que me vem à memória no automobilismo.

Aos poucos, Zanardi foi voltando. Ídolo demais. Em carros de turismo, claro. Ganhou algumas corridas no WTCC e começou a se envolver com os esportes paralímpicos. Venceu a Maratona de Nova York, o que, por si só, já foi algo sensacional.

Nesta quarta, o italiano voltou à Brands Hatch, como atleta paralímpico, sonhando em dar a seu país um ouro na Paralimpíada de Londres. E conseguiu. Era um dos favoritos, não decepcionou e, em um ambiente que não lhe é nada estranho, num autódromo, brilhou como nunca.

Zanardi é um dos maiores esportistas de todos os tempos. Não tem como falar de persistência, de superação, sem falar dele. Um gênio. Pena que não pude ver a prova. Choraria mais do que estou chorando neste momento.

Dia desses ele falou que gostaria de disputar as 500 Milhas de Indianápolis, prova em que nunca competiu, por incrível que pareça. Seria espetacular vê-lo naquele grid de 33 carros no Brickyard. Assim como tudo o que ele tem feito desde a tragédia que poderia tê-lo conduzido a um afastamento do esporte, que poderia tê-lo marcado apenas como mais uma vítima dos riscos do automobilismo.

Obrigado, Zanardi, você é foda demais.

Atualizando…

Chip Ganassi e Jimmy Vasser revelaram que estão conversando para dar a Zanardi um carro para a disputa das 500 Milhas de Indianápolis do ano que vem. Foi pela Ganassi que Zanardi competiu nos anos do bicampeonato da Cart, em 1997 e 1998. E eu começo a chorar de novo.

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8 comentários sobre “Obrigado, Zanardi

  1. Foda é pouco. Me lembro da foto que estampou as primeiras páginas de jornal quando ele deixou o hospital, poucos dias depois do acidente. Uma imagem chocante, em cima de uma cadeira de rodas, iniciando esta jornada espetacular. “-Preciso começar já, quero carregar meu filho em meus ombros o quanto antes”, foi algo assim que ele declarou. Que ser humano fora de série, verdadeiro campeão da vida.

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  2. Engraçado, é dificil achar as palavras para descrever o feito do Zanardi. Esse gigantesco ser humano, vai acabar nos matando de tanta emoção…. hoje já chorei por isso, e me pus a pensar, só falta a ganassi colocar um carro vermelho com aquele raio amarelo….. Que emoção seria ver isso!!!!!!
    E imagino os Deuses lhe dando uma vitória de presente. Poderia morrer em paz depois disso, pois não veria feito mais espetacular nesta vida.

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  3. Não acho que Zanardi seja um dos melhores esportistas. Tenho certeza de que ele é o melhor, maior e ponto final. Nesses últimos dois dias eu simplesmente fiquei lembrando do quanto lamentei naquele dia do acidente em Lausitz. Ele é um dos meus maiores ídolos, e se alguém me perguntar quem é o melhor de todos, direi: Sem sombra de dúvidas, Alessandro Zanardi.

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  4. Ótimo texto.

    Muito legal ver o cara dando a volta por cima, dá pra ver que ele faz o que faz porque realmente ama isso.

    Obs.: se me permite, gostaria de fazer uma correção. O correto no português é “paraolímpico” ou até “parolímpico”, mas nunca “paralímpico”. Assassinaram nossa língua apenas para ficar mais parecido com o inglês (paralympic).

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