A batalha entre a FIA as equipes

A Red Bull parece constituir a principal oposição ao que Jean Todt e a FIA desejam fazer com a F1, no que diz respeito à redução de gastos

Os bastidores da F1 andam um tanto tumultuados. Tudo por conta do novo Pacto de Concórdia, documento que rege as relações comerciais e desportivas entre FIA, FOM e, mais importante, a divisão dos lucros entre as equipes da categoria.  Faço esse post para tentar explicar o que vem acontecendo e organizar as informações que têm sido veiculadas recentemente.

Nesta segunda-feira, uma reunião, inicialmente marcada para hoje (terça), foi considerada útil pela FIA. Apesar disso, um consenso ainda não foi encontrado. E deve sair “nas próximas semanas”. Ou seja: é bem possível que o prazo final para inscrições, 31 de outubro, seja prorrogado.

Consenso. Essa é a palavra usada e defendida por Jean Todt. O presidente da FIA não quer fazer nenhuma imposição, quer que todos concordem consigo. “Eu não sou um ditador”, disparou.

Todt disse isso em entrevista ao jornal ‘Financial Times’, que foi feita na semana passada. Essa ressalva é importante. Mais material será publicado no fim de semana do GP dos Estados Unidos. Entre o encontro do francês com a publicação, Max Mosley, seu antecessor, falou na Sky Sports que um consenso é bom, mas que, às vezes, é preciso impor as coisas. Dizer “é isso e ponto. Quer vem, não quer, não vem”.

Durante seus 16 anos à frente da entidade máxima do automobilismo, Mosley foi diversas vezes acusado de agir de maneira ditatorial. Por isso se envolveu em diversos confrontos com as equipes e teve sua imagem desgastada ao longo do tempo – Todt não quer que isso aconteça.

Mas, apesar do certo autoritarismo de Mosley, a F1 cresceu muito durante sua gestão. Também por isso ele ficou tanto tempo na presidência. Sua parceria com Bernie Ecclestone, bem como alguns acordos duvidosos, foram muito proveitosos para todos.

O problema é que, fazendo isso, Mosley não só escanteou outras modalidades como aceitou passar os direitos comerciais para as mãos de Ecclestone, por meio da FOM, por um valor que, embora parecesse bom à época, não é mais tão bom assim para a FIA. Cerca de US$ 350 milhões.

A queda de Mosley aconteceu quando sua imagem foi desgastada de tal forma que não era possível reverter, em 2009. No começo daquele ano, o tablóide sensacionalista ‘News of the World’ divulgou um vídeo do advogado britânico em uma orgia de temática nazi-fascista (Oswald Mosley, seu pai, foi líder da união fascista no Reino Unido). Max deixou de comparecer a algumas corridas, tentando passar um pano em tudo.

Porém, as equipes ficaram extremamente insatisfeitas com a ideia de se implantar um teto orçamentário na F1 – ideia essa que me agrada. Tomo como exemplo a NFL, nos Estados Unidos, que tem um teto orçamentário e campeonatos sempre extremamente disputados. As equipes, antes unidas pela Fota (Formula One Teams Association), anunciaram uma debandada em massa – sobrariam Williams e as nanicas. Ecclestone pirou, entrou no meio do rolo e tudo se resolveu. Sem o teto e sem Mosley. Se todos gostaram tanto do começo de campeonato desse ano, com várias equipes fortes e figurando nas primeiras posições, podem ter certeza que, a cada ano, os times tops da F1 mudariam.

Com Todt, a proposta de se diminuir as cifras gastas pelos times não morreu. Há algum tempo que existem discussões em curso a respeito do RRA, o Acordo de Restrição de Gastos. Todos querem reduzir os gastos, da boca para fora. Ferrari, Sauber, Red Bull e Toro Rosso deixaram a Fota.

Aparentemente, são os rubrotaurinos que emperram tudo. Todt não quer forçá-los a aderir. Vale lembrar que a Red Bull salvou a FIA e assumiu a promoção do WRC. É uma via de mão dupla. Tudo é. E a Red Bull, há algum tempo, é uma potência na F1.

A polêmica não para por aí. As equipes reclamam que, com a FIA desejando tanto reduzir os gastos, é incoerente aumentar as taxas de inscrição para o Mundial. De acordo com o jornalista britânico James Allen, haverá uma taxa fixa de 500 mil euros mais 7 mil por ponto somado no campeonato de 2012. Com esses valores e estimando as pontuações finais das equipes a partir das médias, a RBR pagaria 3,7 mi; Ferrari, 3 mi; McLaren, 2,9 mi; Sauber, 1,5; as nanicas, 500 mil; só para listar alguns exemplos. Outra incoerência é que seria como se esses times devolvessem à FIA parte da premiação que conquistaram justamente por conta de sua posição final em 2012.

Por outro lado, é completamente válido que a FIA deseje receber uma parcela maior dos dividendos da F1. Um ponto muito positivo da gestão de Todt é que ele, ao contrário de Mosley, está tentando alavancar outros campeonatos, principalmente num momento de crise financeira que afeta certames do mundo todo. Foi Todt que recriou o Mundial de Endurance, que morrera há décadas. Está tentando levantar o WRC, incentivar categorias de base. Como o próprio disse, a FIA precisa de receita para levar esses projetos adiante.

Aí vem o desejo das equipes, que deve servir de moeda de troca para as vontades dos dirigentes. Aparentemente, eles estavam acertados com Ecclestone. A Mercedes, que demorou um pouco mais para chegar a um acordo, mostrou que tem interesse em seguir na F1 ao contratar Lewis Hamilton a peso de ouro.

Os times estão muito insatisfeitos com o modo como os regulamentos técnicos vem sendo concebidos. Extremamente restritivos, tiveram uma parcela de motivação para a debandada das montadoras e resultam numa coisa bastante chata nos últimos tempos: as proibições. Proibiram difusor duplo, duto frontal, duplo DRS, difusor soprado… a lista só cresce.

Solução proposta: a FIA passar a concepção dos regulamentos para as equipes. Isso é ridículo. Escrevi há algum tempo sobre isso aqui no blog, quando Ecclestone fez a sugestão publicamente. Um órgão superior precisa fazê-lo. Não vou nem dizer imparcial porque certamente vai aparecer gente dizendo que a FIA trabalha para a Ferrari. Mas as equipes, no momento em que se sentirem prejudicadas, não vão aceitar mudanças. Vejam a Fota, que sugriu com aquele velho discurso de todos unidos e mais uma vez a associação das equipes se desmembrou. Não estão mais todos unidos.

Chefe da Red Bull, Christian Horner disse em entrevista à ‘Autosport’ que o principal empecilho está nessa questão dos regulamentos.

Não dá para deixar de mencionar o regulamento que existirá na F1 a partir de 2014, com os novos motores, V6 turbo de 1.6 L. Citando essa preocupação, as inscrições e a composição da F1, sete equipes assinaram uma carta enviada a Todt justificando os motivos que as desagradavam: McLaren, Mercedes, Force India, Sauber, Caterham, Marussia e HRT.

A FIA cedeu em um aspecto. Com o argumento de que deixaria a Comissão da F1 mais dinâmica, queria reduzir os lugares ocupados pelas equipes de 12 para seis. Não quer mais, dizem. Só que mais gente vai precisar recuar para que um acordo seja firmado, até porque Todt não pretende fazer imposições. Quer um consenso.

A minha opinião é que um acordo sairá. Não é nem o caso de deixar a F1 e criar outro campeonato, pois não há mais tanto tempo hábil assim. Vamos aguardar pelos próximos capítulos e ver se essa história toda vai ser resolvida na terra de Buda, nesse fim de semana, ou se vamos ter que esperar além do dia 31 de outubro, o dia das bruxas.

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