O juiz, o goleiro e o automobilismo brasileiro

Copa Fiat - N: 2010 - M: 2012 (Foto: Duda Bairros)

Copa Fiat – N: 2010 – M: 2012 (Foto: Duda Bairros)

SÃO PAULO, 19h29 – Diz a sabedoria popular que juízes e goleiros não podem ser elogiados antes do último trilar do apito. A mesma regra vale para o automobilismo brasileiro. Não dá para elogiar antes da hora. No começo do mês, depois da Corrida do Milhão, escrevi sobre como acabou bem o ano da Stock Car, em comparação aos anos anteriores. É verdade, vale o elogio. Mas não dá para estendê-lo para o automobilismo brasileiro como um todo. Não se trata de um avanço geral. O resto acabou mal.

Foi confirmado hoje o fim de mais uma categoria: a Copa Fiat. Tá lá no GRANDE PRÊMIO. Era a principal classe do Racing Festival, que tinha a F-Futuro até o ano passado. O campeonato dos formuletas chegou ao fim por falta de pilotos. O de turismo, que corria com os Linea, porque a Fiat retirou o apoio ao certame. Uma determinação da direção mundial da montadora, que valeu não só aqui para o Brasil, mas também para outros lugares, como a F3 Italiana. A Fiat do Brasil já havia optado pela manutenção da parceria com a família Massa, segundo Titônio, pai do piloto da Ferrari na F1.

A notícia é péssima. Não que, em seus três anos de existência, a Copa Fiat tenha sido um grande campeonato. Não foi. Foi mais um campeonato monomarca dos muitos que já criaram por aí. Pelo menos reuniu pilotos profissionais, alguns de ponta, outros que procuravam crescer na carreira. Não eram apenas gentleman drivers. Isso é um ponto positivo.

Esse é o quarto campeonato de turismo que acaba neste ano. Antes, já haviam ido para a tumba a Top Series, a Copa Montana e o Mini Challenge. Top Series vocês ficaram sabendo aqui pelo blog. A Copa Fiat, ontem pelo Nei Tessari no blog dele e hoje, oficialmente, no GP.

E o GT Brasil terminou a temporada bem mal das pernas, escancarando uma rixa entre sócios e apresentando um conflito de interesses enorme. Ficou mais do que provado, agora, que organizador não pode competir na própria corrida. Ainda tem a Spyder Race, campeonato de protótipos, outro que não existirá em 2013, e o Audi DTCC, cujo fim estava previsto desde o começo, visto que o contrato valia apenas até a última etapa de 2012.

Não é só aqui que estamos vendo categorias acabar. Lá fora também tem campeonatos chegando ao fim. O Mundial de GT1 capengou até em 2012. A FIA ameaçou até mesmo cancelar. Outras categorias de GT, também. Mas vamos falar do que acontece no Brasil.

Há alguns anos que o turismo é que movimenta as pistas desta terra. Os principais campeonatos são de turismo: a Stock Car, o GT Brasil, o Brasileiro de Marcas, a Copa Fiat, o Mercedes-Benz Grand Challenge. Tem também a F-Truck, que não é turismo, mas que é a segunda categoria do país. Essa lista conta com alguns outros campeonatos de menor expressão. Dos grandes, o que está realmente certo para o ano que vem? Stock Car, BR de Marcas e o Campeonato Brasileiro de Turismo. Se alguém me dissesse que o GT não correrá em 2013, não duvidaria, infelizmente.

Nos monopostos, sobrou a F3 Sul-Americana, em nível nacional, e muito mal das pernas. A F-Futuro acabou após dois anos de vida, assim como a F-Renault, no começo da década passada. A F-Chevrolet também não durou muito, no fim dos anos 1990.

Outra coisa que preocupa: tudo está nas mãos de poucos. Dos campeonatos que listei para 2013, quatro estão sob a tutela da Vicar: Stock, Marcas, CBT e F3. Sobram a F-Truck e o GT Brasil (que carrega consigo o MBGC). O dia que der um pepino qualquer com a Vicar, mais da metade do automobilismo brasileiro vai pro beleléu.

Os carros da Copa Fiat foram comprados pelas equipes e poderão ser vistos em campeonatos independentes Brasil afora

Os carros da Copa Fiat foram comprados pelas equipes e poderão ser vistos em campeonatos de organização independente Brasil afora. Campeonatos regionais, por exemplo (Foto: Divulgação)

Há quem diga que não é bom ter tantos campeonatos. Não concordo. Num automobilismo onde não se pode treinar, correr em outras categorias é uma maneira de se manter sempre na pista. A existência de uma variedade de campeonatos bons também dá a oportunidade para pilotos novos mostrarem serviço em busca de chegar ao principal, hoje, a Stock Car. O Marcas vai se mostrando bom para isso, com o apoio das montadoras e um relativo baixo custo. (E gera empregos).

Montadoras. Importante ressaltar o plural. Várias marcas estão envolvidas (Toyota, Honda, Chevrolet, Ford, Mitsubishi, e quem sabe a própria Fiat, no futuro, já que um eventual retorno às pistas não foi tratado como impossível). Campeonatos monomarca ficam reféns da canetada de um dirigente. A qualquer momento podem acabar. No caso do Marcas, se uma montadora sair, ainda estarão lá outras três, quatro, sustentando o negócio. E o custo é menor. O problema é ter uma só. O WTCC, por exemplo, está mal das pernas. Tinha a Chevrolet, que saiu e será substituída pela Honda. Deve vir por aí outro ano bem fraco.

Retomando o gancho do post, o fim da Copa Fiat, é mais um sinal de como a coisa vai mal. Não adianta falar que houve aumento no número de pilotos se os campeonatos acabam e eles não têm onde correr. Se não há campeonatos de base para a formação de novos pilotos. É preciso mudar. A CBA precisa mudar. Não estou falando em mudar a chapa. Estou falando de mudar a postura, porque a chapa já mudou e as coisas não mudaram.

E lembrem-se: muito cuidado na hora de elogiar. Falar do automobilismo brasileiro é tão difícil quanto falar de um juiz e de um goleiro.

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